sexta-feira, 24 de maio de 2013

De repente, numa madrugada qualquer ...

Olá queridos seguidores! Acabei de ler esta linda e emocionante história e não hesito, sem a partilhar com todos vós. Leiam-na até ao fim (peço desculpa se é muito longa), mas não se vão arrepender. Adorei, espero que vocês também gostem.

De repente,

Numa madrugada qualquer … se tivesse oportunidade, hoje, de fazer bem a uma pessoa que não conhece, o que faria? Esforçava-se? Hesitava? Optava por seguir outro caminho?




«Tal como hoje, há 20 anos eu guiava um táxi para garantir a minha sobrevivência. Uma vez recebi uma chamada às 2:30 da manhã. Ao chegar ao local, deparei-me com um edifício cuja única luz de uma janela no rés-do-chão. Nestas circunstâncias, muitos condutores buzinariam uma ou duas vezes e iriam embora se não aparecesse ninguém no minuto seguinte. Mas sem que eu percebesse bem porquê, aguardei um pouco. E, como ninguém surgia e o perigo me pareceu mínimo, saí do carro e entrei no prédio. «Este passageiro pode ser alguém que necessita do meu auxílio», pensei para comigo.

 Caminhei em direção à porta que me pareceu ser do apartamento onde havia luz e bati. «Só um momento», respondeu uma voz aparentemente idosa e frágil. Depois de uma longa pausa, a porta abriu-se. Uma mulher de estatura baixa e com cerca de 80 anos estava diante de mim. Usava um vestido e um chapéu com um véu preso à frente do rosto, que parecia surgido dos filmes dos anos 40, e tinha uma pequena maleta.
A casa aparentava não ser habitada há anos. Toda a mobília estava tapada com lençóis. Não tinha relógios de parede, nem bibelôs ou utensílios nas bancadas. Num canto estava uma caixa de cartão cheia de fotografias e artigos de vidro. «Pode levar a minha mala até ao carro?», perguntou. Levei a mala até ao táxi e voltei para ajudar a senhora. Ela agarrou-se ao meu braço e caminhámos, devagarinho, em direcção ao táxi. Ela agradecia-me a ajuda. «De nada», disse-lhe. «Eu tento tratar os meus passageiros da maneira como gostaria que a minha mãe fosse tratada.»



«Oh, é um rapaz tão educado», disse. Quando entrámos no táxi, ela deu-me uma morada e perguntou: “Pode passar pela Baixa?» 

«Não é o caminho mais curto», respondi rapidamente. «Não me importo», disse ela. «Não estou preocupada. Vou a caminho de um lar». Olhei pelo espelho retrovisor e vi os seus olhos a brilhar. «Não tenho família», continuou. «E o médico diz que não tenho muito tempo de vida».
Discretamente alcancei o taxímetro e desliguei-o. «Por que gostaria de ir?», perguntei. E seguimos o percurso que ela ia indicando. Durante duas horas vagueámos pela cidade. Ela mostrou-me o edifício onde tinha trabalhado como telefonista. Depois fomos ao bairro onde ela e o marido tinham vivido quando eram recém-casados e passámos por um armazém que é hoje um depósito de mobília mas fora um salão de baile onde ela costumava ir dançar quando era miúda. Às vezes pedia-me para abrandar quando passávamos num determinado lugar e, fixando um determinado ponto na escuridão, recordava os tempos idos num silêncio ensurdecedor.
Quando despontou o primeiro raio de sol no horizonte, disse: «Estou cansada. Vamo-nos embora, para o meu destino».
Fomos em silêncio para a morada que me deu. Era um edifício baixo, uma pequena casa de repouso. Dois assistentes vieram ter connosco assim que saímos do carro. Estavam à sua espera. Abri a bagageira, tirei a sua pequena mala e levei-a até à porta. A velhinha já estava sentada numa cadeira de rodas. «Quanto é que lhe devo?», perguntou, pegando o porta-moedas. «Não me deve nada», respondi. «Mas está a fazer pela vida», respondeu ela. «Existem outros passageiros», disse eu. Sem pensar, curvei-me e dei-lhe um abraço. Ela agarrou-me com força e carinho. «Você deu a uma velha mulher um pequeno e último momento de alegria», disse ela. «Obrigada».


Voltei para o meu táxi apreciando aquela manhã solarenga. Atrás de mim, uma porta fechou-se. Era o som de uma vida que se fechava na escuridão. Não transportei mais nenhum passageiro naquele turno. Guiei vagueando num pensamento sem rumo. Durante o resto do dia mal conseguia falar. E se aquela mulher tivesse apanhado um taxista severo ou impaciente que estivesse no seu último turno? E se me tivesse recusado a transportá-la por todos aqueles sítios, ou tivesse buzinado uma vez e depois tivesse ido embora?
Não penso que tenha feito a melhor acção. Somos condicionados a pensar que as nossas vidas andem em torno de grandes momentos. Mas os verdadeiros grandes momentos costumam apanhar-nos de uma forma graciosamente desprevenida. -in Newsletter, AdvanceCare, Revista Semestral da AdvanceCare, Primavera 2008, número 18, pp. 38 a 41.

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